Se você convive com uma criança pequena, certamente já foi surpreendido por perguntas desarmantes: "Onde eu estava antes de nascer?", "Para onde vai o tempo que já passou?", ou "Por que o nada não existe?". Diante de perguntas assim, muitos adultos sentem uma leve vertigem e correm para dar uma resposta rápida, técnica ou evasiva. No entanto, ao agir assim, interrompemos o momento mais sagrado do intelecto humano: o assombro.
Na história das ideias, o assombro não é apenas uma curiosidade passageira. Ele é o verdadeiro ponto de partida de toda a Filosofia.
1. O Berço Grego: Thaumázein (θαυμάζειν)
Há mais de 2.400 anos, em Atenas, os primeiros filósofos perceberam que o pensar não começa por fórmulas lógicas ou pelo acúmulo de dados, mas por uma comoção do ânimo que os gregos chamavam de thaumázein — frequentemente traduzido como espanto, admiração ou assombro.
"O assombro (thaumázein) é a verdadeira emoção do filósofo. A filosofia não tem outro começo senão este."
— Platão, no diálogo Teeteto (155d)Poucas décadas depois, Aristóteles registrou na abertura de sua Metafísica:
"Com efeito, foi pelo assombro que os homens, tanto no início como agora, começaram a filosofar. No princípio, assombraram-se com as dificuldades mais comuns; depois, interrogando-se pouco a pouco, voltaram-se para problemas maiores (...). Mas aquele que se assombra reconhece que ignora."
— Aristóteles, Metafísica (Livro I, 982b)Assombrar-se, portanto, significa suspender a ilusão de que o mundo é óbvio. É olhar para uma árvore, para o brilho das estrelas ou para a respiração de um filho adormecido e sentir o choque de uma evidência sublime: as coisas existem, e isso é extraordinário.
2. A Criança: A Filósofa Natural
Com o passar dos anos e as exigências da vida adulta, somos treinados a utilitarizar o olhar. Uma pedra vira material de construção; a chuva vira um problema de trânsito; o tempo vira um ponteiro no relógio. Perdemos a capacidade de nos assombrar porque acreditamos já saber como o mundo funciona.
A criança, por outro lado, ainda não foi domesticada pelo hábito. Ela é um pequeno hermeneuta: um ser em permanente estado de tradução e espanto, decifrando os enigmas da existência a cada instante. Quando uma criança sente saudade ou pergunta sobre a ausência, ela está tocando as mesmas fronteiras ontológicas que inquietaram Descartes, Kant, Kierkegaard e Heidegger.
3. O Risco das Respostas Prontas e o Valor da Escuta Socrática
O maior perigo para a sensibilidade infantil não é o silêncio diante do mistério, mas a resposta apressada e dogmática. Quando dizemos à criança "é assim e pronto" ou entregamos uma explicação simplista para calar sua curiosidade, ensinamos que fazer perguntas não leva a lugar algum.
Em contrapartida, a tradição socrática nos ensina a arte da mediação. Em vez de entregar a resposta pronta, o adulto acolhe a pergunta com outra pergunta:
- "E você, onde acha que fica a saudade quando a gente não a vê?"
- "O que faz uma coisa ser bonita aos seus olhos?"
- "Como você sabe que uma pessoa te ama quando ela não está dizendo nada?"
Esse pequeno gesto muda tudo: o momento da leitura deixa de ser um mero passatempo e passa a ser um ritual de intimidade e presença, onde pais e filhos compartilham o assombro de estarem vivos juntos.
Viva o assombro e a leitura compartilhada com "Saudade de Ti"
O livro de estreia do selo O Pequeno Hermeneuta foi escrito justamente para criar essa ponte poética. Com ilustrações tocantes e um Guia Socrático de Mediação encartado na contracapa, ele ajuda pais e filhos a navegarem juntos pelo mistério do afeto e da espera.